O General e a água!
Charles Mathieu Gardanne
“A efémera conquista de Portugal foi a causa de todos os desastres que para a França depois seguiram.(…) A nossa passagem através da Beira Baixa foi terrível e ao mesmo tempo milagrosa. Melhor seria se fosse um insucesso (…) evitaria futuras humilhações, que depois tivemos que sofrer quando os nossos generais mais celebres baquearam contra simples gente do campo e contra um Wellington (…) e mais tarde ver a França retalhada e submetida”.
General Thiebault, Chefe do estado-maior de Junot, Memórias
Não sendo a Beira Baixa campo de grandes batalhas, foi sim o eixo onde se jogou parte das manobras que viriam a determinar a retirada das tropas francesas do território sempre com grandes custos para o povo anónimo, sempre fora dos grandes estudos militares. O Marquês de Alorna em 1801 foi enviado para a Beira, comandando o sector da Beira Baixa. Em 1807 de acordo com as suas posições, apoiou a aliança francesa e o corte com a Grã-Bretanha. Aceita comandar as forças portuguesas dominadas pelo exército francês. Sai de Portugal com Massena, sendo mandado inspeccionar já como general de divisão, a Legião Portuguesa que integra o exército francês que invadiu a Rússia em 1812. Alorna em 1801 como comandante do sector da Beira Baixa toma algumas medidas: reconstrução das muralhas e fortificações existentes na Beira, construção da estrada nova de Tomar ao Fundão. Um centro de víveres em Cardigos e outro no Fundão com hospital. A estrada nova foi uma das vias de comunicação mais determinante na guerra para os dois lados em conflito. August du Fay, um dos engenheiros que Napoleão manda a Portugal, faz um levantamento notável sobre os caminhos e outros dados económicos e topográficos da Beira onde o Fundão è parte central. Fala da qualidade do seu vinho. As entidades turísticas ainda não descobriram a importância deste estudo, admira ávidas como são. Curiosamente assinalava nos estudos, chamava a atenção para alguns pontos na estrada nova, para se travar uma batalha onde acabou mesmo por acontecer, no cabeço Zibreiro e Moradal, aquando da guerra da sucessão espanhola, ali se travaram confrontos, diz. Até então um pouco poupada ao saque das tropas francesas, mesmo na terrível passagem de Loison, (o Maneta) fez por Almeida a caminho do Alentejo, sobre isso escreveu o general Foy, “A Covilhã cidade de manufactura fica fora da estrada real, mas vêm à estrada assassinar os nossos pobres soldados. O mesmo se passou com o Fundão, em Alpedrinha tentaram barrar-nos o caminho comandadados pelo juiz de fora João Pedro Ribeiro de Carvalho, e pelo padre-cura. Uma coluna de mil soldados comandados por Charlot vai de Atalaia a Alpedrinha massacrou e preseguios até Alcongosta”. Loison não se afastou da estrada real Alpedrinha foi a excepção, Castelo Branco terra saqueada logo com a primeira entrada de Junot por Segura em Outubro 1807, com aproximação de Loison temeu-se o pior mas o seu objectivo era esmagar os levantamentos que ocorriam por todo o Alentejo, ruma a Sarzedas e acampa no Chão da Vã. O bispo junta com os víveres que tinham sido exigidos para as tropas, um banquete para Loison, que lhe manda pelo seu criado. Frederico Lecor foi ajudante de campo do Marquês de Alorna. Lecor assim como as forças inglesas peregrinaram pela Beira Baixa, principalmente durante os anos 1809 e 1810 sacam tudo o que havia para comer. História de fome e dor, um esforço de guerra ainda por fazer. Poderemos avaliar os custos? Desses milhares de militares pouco ou nada disciplinados. Com a política de terra queimada imposta ao pais, nunca se saberá o quanto. As ordens de serviço mostram o frenesim constante da movimentação das tropas e milícias por toda a Beira Baixa. Lecor num golpe de antecipação parte do Fundão com as suas forças para o Espinhal fazendo caminho pela Pampilhosa, Pedrógão Grande, leva consigo a sua tropa e milícias, todos os meios de transporte que há. Muitos desses pobres ganhões não voltariam vivos, como se vê um pouco por estas aldeias nos acentos de óbito. Quando Lecor chega ao Espinhal, a 20 de Setembro, toma conhecimento da ordem de Wellington exactamente nesse sentido.
Convento de Lorvão, 20 de Setembro, 1810. 10 Horas da noite.
Sr. acabo de receber uma carta do General Hill datada de ontem, pela qual saber ter chegado ontem à noite a Pedrógão Grande. Imediatamente ao receber esta carta solícito andar sobre a ponte da Mucela, fazendo o caminho que a vocês convirão melhor. Conto que fará o caminho amanhã 21 e que estará em S. André de Poiares dia 22.
Tenho a honra de ser, WELLINGTON
Depois da desastrosa entrada em Portugal Massena, muita vez confrontado pelos seus generais da má escolha táctica e condução das tropas. Perdidos em combates menores impostos por Wellington. Quando chegou às linhas de Torres Vedras, em Outubro o renhido combate do Sobral de Monte Agraço, 8º corpo francês comandado pelo general Junot é rechaçado. Fica claro a impossibilidade de ultrapassar as linhas. O tempo passa começa a faltar: comida para os militares e forragens aos animais nos campos de Santarém. Por ironia os oficias, sentiam mais dificuldades acantonados não praticavam eles as pilhagens como era prática dos soldados, meses duros estes passados nos campos do Ribatejo. Escreveu o capitão Marcel referindo-se também aos soldados feridos na batalha do Buçaco que ficaram em Coimbra por ordem de Massena: “Mas que pensar da condução de um general chefe que abandona assim milhares de corajosos, entre os quais 3000 podiam pelo menos ser-nos devolvidos se forem guardados ou se seguirem, porque tinham apenas feridas pouco graves. E não impediu os Ingleses de chegar antes de nós perto de Lisboa. Na planície de Vila Franca. Massena queria juntar-se a Wellington mas ele ocupou posições tão cortadas e tão fortes, que não era possível mais atacá-lo” Noutro momento da guerra escreve ainda Marcel: “Todas as aldeias circundantes eram desertas mas abundavam de grãos; foram repartidos entre as divisões de modo que cada regimento pudesse fazer o seu pão. Se um regimento contasse 1500 homens, 400 iam colher, 200 batiam o grão, moíam-no, faziam o pão, 400 trabalhavam nas trincheiras. Pode julgar do descanso que tinham os nossos soldados, incessantemente ao trabalho sob um sol escaldante, frequentemente afastados de uma milha da água que era necessário ir extrair, dormindo mal, e comendo um único pão grosseiro fabricado por eles mesmos. Ah! Pobre soldado, sempre sacrificado, sempre contento aqueles que repreendem teus pecadilhos: nunca, não viu o que suportavas!” Massena envia o general Foy para dar a conhecer a situação ao imperador. “ Depois da queda do império Foy torna-se num parlamentar notável os seus discursos estão publicados”. “ Era membro da maçonaria”. As únicas notícias do exército de Massena eram obtidas dos jornais de Londres. Três batalhões para a sua escolta até à fronteira espanhola. Sai do Carregado perto de Santarém a 29 de Outubro, a 23 de Novembro é recebido por Napoleão. Segue a caminho da Beira Baixa.Foy recomenda ao general D’Erlon, comandante do 9º corpo do exército acantonado perto de Salamanca, para seguir para Portugal, e dá instruções ao general Gardanne como encontrar o exército francês. Começa o drama de Gardanne por terras da Beira. Dia 13 o general Silveira levanta o cerco que faz a Almeida em poder dos franceses devido à aproximação das tropas de Gardanne, e logo no dia seguinte enfrenta-o num combate sangrento em Valverde, Pinhel. Gardanne passa no Sabugal chega ao Fundão. Daquilo que se sabe da passagem dos franceses pelo Fundão, Gardanne parece-nos ser o principal, protagonista das histórias e relatos que se conhecem sobre franceses na vila do Fundão. Já que as passagens do general Foy são apressadas, quando passa a caminho de França faz o caminho até Sarzedas e depois continua a estrada real, Atalaia, Penamacor e Sabugal, era normal a coluna seguir um percurso, ao mesmo tempo a cavalaria invadia as aldeias próximas na busca desesperada de alimentos. Apanhavam de surpresa as pessoas e dai um número elevado de mortos onde menos se esperava. Quando volta de França faz caminho Cidade Rodrigo, Sabugal, Belmonte, Pêraboa, Ferro. Dorme em Alcaria segue Freixial, Castelejo para a Enxabarda, dia 1 de Fevereiro é atacado junto à Enxabarda pelas ordenanças de Alpedrinha apoiadas pelo povo das aldeias da Maunça, nesse ataque perde duzentos e sete soldados. No sopé do cabeço Zibreiro, onde a estrada contorna o cabeço para o Ingarnal, (O cemitério dos franceses), a mortandade ai ainda é maior. Se os números que se conhece estão certos de Salamanca a Santarém o general Foy perde 1200 homens. Segundo alguns depoimentos a coluna dividiu-se, os soldados ficaram por sua conta e risco. Quando chega a dia 5 de Fevereiro não fala do que se passou mas o disfarce era impossível. O desaire foi total. Ficam a saber que a tentativa de Gardanne falhara. O irmão de José Acúrsio das Neves, Padre em Arganil.Acúrsio das Neves, figura pública sem ser militar que mais lutou e escreveu contra os invasores franceses, Com ascendentes em Janeiro de Cima, mãe, avós. Estrato da carta do irmão: “ para te relatar o que por aqui se tem passado os franceses, seria necessário escrever muito; eles sempre têm andado ao redor de nós, já pela estrada do Fundão, já pelas partes de Pedrógão, chegaram ao pé de Alvares, até mesmo chegarão a estar defronte do lugar de Cambas ao fundo de Janeiro de Baixo, aqui li nas gazetas o acontecido na estrada nova do Fundão, Castelejo, Enxabarda e dali para baixo; mas elas a este respeito omitirão partes negativas, e talvez fosse por falta de informação. Eu bem quis mas não tive por onde e o certo que a mortandade, na estrada nova duas vezes que a rodearam é muito maior do que dizia a gazeta. O nosso primo padre José Antão de Janeiro, sendo de tanta verdade como tu conheces, teve a pachorra de ir passear um bocado da dita estrada, e somente em uma légua contou 95 mortos, o valor de alguns paisanos foi desmarcado e cinco deles fizeram bravuras” Das duas vezes que refere a carta é: com a passagem do general Gardanne e o general Foy. A carta muito extensa está recheada de acontecimentos relatados na primeira pessoa. Gardanne segue também pela estrada nova onde os ataques das milícias de Trant à sua coluna são terríveis, coluna composta segundo os ingleses 9 mil outros referem de 5 a 6 mil soldados, dia 25 de Dezembro está a uma jornada de (Punhet), Constância. O percurso pela Beira descrito pelos próprios: “Cidade Rodrigo, Sabugal, Sortelha, Capinha, Fatela, Valverde, dia 22 de Novembro Fundão.O Fundão terra bonita com vistas sobre o vale do Zêzere, Serra da Estrela. Dia 24 começamos a subida difícil da Enxabarda (aldeia má) até à serra dos Três Termos, apesar dos maus planos a paisagem é muito bela, pela crista da Serra até ao Giraldo”. Continua a sua descrição dos lugares, das aldeias desertas e destruídas, da estrada nova até Cardigos onde param. Invertem a viagem até à Sobreira Formosa e ai deixam a estrada nova e fazem a estrada real pelo Salgueiro do Campo, Tinhalhas, Atalaia, Penamacor: “Uma vila bonita e fortificada” No Sabugal, o narrador fala da fome, do cansaço insuportável, saem para Valverde del Fresno Espanha.
“Agora perdeu completamente a sua rota. Não sabendo onde encontrar o exército de Massena, vagueou em todos os sentidos, e quando alcançou Cardigos, os seus mapas mostravam o Zêzere, não organiza uma coluna em busca de uma força amigável. Deve sempre dirigir-se por rios, por florestas, por cidades grandes e por cumes das montanhas, para se mostrar às tropas em qualquer lugar próximo, eles certamente têm piquetes nestes pontos importantes. É duro compreender porque Gardanne se esqueceu desta regra do ofício. Perdeu realmente muitos homens num recuo precipitado sem ter visto o inimigo. Retornou a Espanha, levando para trás os reforços, de munição, e cavalos”
Barão Marbot. Memórias
Gardanne faz ainda uma segunda entrada em Portugal pelo vale do Mondego. Mais uma vez a água é a grande barreira. A ponte da Mucela está parcialmente destruída e mesmo assim guardada pelos ingleses. Muda de caminho e vai a Góis, Lousã, Espinhal, até Tomar. Teve a mesma sorte é forçado a regressar a Espanha. Da viagem de regresso não conhecemos pormenores mas o irmão de Acúrsio das Neves relata na sua carta em datas coincidentes barbaridades só praticáveis por um exército em desespero, nas vilas de Góis, Arganil e Sarzedo, que ele presencia, durante um mês segue-se a retirada de Massena.Depois da saída dos franceses de Portugal, prolonga-se um pouco por toda a Espanha. Junto à fronteira portuguesa há combates e batalhas durante mais de um ano onde as tropas portuguesas participam com bravura. As duas forças movimentam-se continuamente de Badajoz a Salamanca. Marmot decide invadir de novo Portugal. A quarta invasão, que dura 20 dias. Fuentes de Onor e sai pela Aldeia do Bispo. O general Foy, vem outra vez à Beira Baixa. Esteve no Alcaide, Alpedrinha e provavelmente no Fundão. O exército de Marmot estende as suas forças até á Guarda, dia 6 cercam o Sabugal. Investindo para Castelo Branco, com uma divisão inteira. Lecor entretanto manda evacuar a cidade.Um ano antes a 3 de Abril, durante a batalha do Sabugal. Os franceses em 1 hora de combate perderam 61 oficiais e 699 soldados. Para Charles Oman, os números são outros: os franceses perderam entre mortos e prisioneiros 1500 homens. Esta curta invasão de 20 dias apenas, em 8 de Abril as tropas estão em Penamacor. Vários grupos percorrem: Covilhã, Fundão, Alcaide e Alpedrinha, pilharam Pedrógão e Medelím.
Humilhado Gardanne não escreve relatórios muito precisos dos locais por onde anda, chega a cobrir-se de ridículo quando diz: chegamos a uma ilha. Estava sim entre dois rios, a ilha é Portugal abandonado pelo seu Rei. Pais com tantos anos de história, um povo que sempre utilizou a água dos mares e rios como poucos, também para a defesa militar. Quando água não há, clamamos por milagre e Santo António faz crescer a ribeira da Enxabarda. Ficamos assim dispensados de assumir a força a nossa grandeza. Rios que corriam livres e limpos. Pouco terá ficado destes invasores, dos ideais que diziam também querer trazer. Ainda hoje não cruzaram todos os rios de Portugal e do mundo.
2008
Diamantino Gonçalves