Nas vertentes do Carregal
Nas vertentes do Carregal
Os últimos construtores de
“jardins suspensos”
Ainda há gente que precisa de terra. Ao longo dos séculos moldaram as encostas, semearam esperança, resistiram e obstinadamente continuam a lutar contra a adversidade do meio, humanizando a paisagem
Fernando Paulouro Neves (texto)
Diamantino Gonçalves (Fotos)
(“Terra
sem uma gota
de céu”
(Carlos de Oliveira)
AO LONGE, recortam-se no horizonte dos socalcos umas silhuetas humanas, gente que se movimenta sobre a terra numa faina continuada e pesada, que recomeça sempre. A estrada asfaltada, que é uma cobra negra a serpentear, acabou de despedir-se das margens do Zêzere, que agora caminha entre ladeiras apertadas e sinuosas para, cortada a ponte do Pisão (que tem “alminhas” floridas nas grades: lembranças avulso de mortes acidentais), subir na descoberta das terras altas onde ainda vive gente.
As silhuetas dos corpos voltam a surgir na retina, em plano mais aproximado, como um detalhe do horizonte. Estão lá ao cimo, nos breves terraços de terra que cultivam. É um grupo, família e amigos, pela certa, que em feriado santo, mal o sol desponta, vem aos preparos da terra e aos cuidados da loja dos animais, pequeno rebanho de cabras brancas e cinzentas, chefiadas por um bode, mais tingido de negro, de imponentes barbaças, que depois irá pastar nos campos verdes da Primavera. É para lá que vamos. Três mulheres e um homem andam a “descomarar” a terra.
NAS vertentes do Carregal, entre pinheiros que o vento semeou a esmo, as escarpas foram-se afeiçoando aos desejos do homem e à sua fome de terra. A escassez do agro aguçou o engenho e as mãos, à força do gume da enxada ou da sachola, transformaram paisagens inóspitas em minifúndios apetecíveis que, à distância do olhar, às vezes parecem pequenos jardins suspensos.
Este imemorial trabalho de humanização é também o resultado de uma certa rebelião contra um destino atroz, edificado na configuração de um povoamento traçado com a régua e o esquadro das desigualdades, como se os deuses tivessem aberto uma caixa de Pandora e soprado no vento todas as dificuldades, todas as sedes e suores, por conta própria ou alheia, desenhando a vida sempre a compasso de uma terra sáfara, que pede sempre esforço acrescido, quantas vezes épico, na melhoria que é a transformação a palmo da paisagem.
Mil vezes o homem se ergueu do chão contra o feixe atávico do meio, numa resistência longa contra o gueto das circunstâncias e das penúrias, perdendo menos tempo na lamúria do que na acção de criar condições mínimas para se fazer a si próprio.
Mil vezes o olhar se confronta contra o resultado material e físico dessa gesta magnífica, na conquista da terra (a fazer lembrar a parábola cinematográfica de “A Ilha Nua”: aí, havia terra, mas a gente precisava de água!) paisagens sofridas, feitas à custa de esforço comum, aqui e ali micropaisagens que têm dentro de si raivas e pu-nhais. Uma longa via-sacra de sofrimento, que é sempre o trabalho que se faz esperança à custa de mitos ancestrais ou de estímulos bem mais terrenos e elementares, convergentes na aventura definidora da condição humana: ganhar o pãozinho nosso de cada dia.
Mil vezes os olhos se prenderam àquelas imagens surpreendentes dos pequenos muros, que se fizeram cálices, para abraçarem escassa terra onde as oliveiras, que ainda hoje lá estão, suavizam a rudeza das encostas do Tejo, do Ocreza e até do Zêzere. Pedra a pedra, com as mãos, se cavaram esses muros, se plantaram as árvores, se afei-çoou o aspecto rude e bravo dos lugares.
AINDA hoje arrepia, quem for dado a esses sentimentos prosaicos, imaginar o esforço humano, o trabalho de sol a sol, o suor ou o sangue que decerto correram nessas batalhas do sem fim em louvor do homem.
Depois de décadas de abandono dos campos – persistir na agricultura chegou a parecer um crime… lembram-se?– há por esta Beira muitos resistentes, porventura os últimos, que continuam a tratar a terra e a torná-la fértil como mãe úbere, e não entram nas estatísticas. É, na maior parte dos casos, agricultura para consumo próprio, às vezes fugaz contributo para a sobrevivência difícil.
Há cerca de dez anos, encontrei idêntica capacidade de resistência e sofrimento nas encostas da Fórnea, a caminho do Ceira, onde os homens, todos os anos, vêm buscar a terra fértil que o Inverno vaza pelo declive, para as margens da ribeira, e a repõem no cimo, levando-a às costas, em cestos de vime.
Sobem, passo a passo, vergados ao peso da terra funda, em gestos pacientes contra a erosão do tempo. Semeiam terra, onde hão-de depois semear culturas, quatro palmos de solo ou pouco mais que o garimpo transforma em superfície útil. Vencedores sem medalha da adversidade.
Nas vertentes do Carregal, o trabalho é diferente: “descomarar”. Mas idêntico é o esforço e a fome de terra, que o olhar paciente e sofrido da senhora Beatriz Ladeira, transportando mais uma canastra de terra escura para que o chão se torne úbere, como uma mãe.
“Céu
sem uma gota
de terra”
Carlos de Oliveira)
A c t o d e p r i m a v e r a
e m t e r r a a g r e s t e
- Ainda há resistentes que põem na terra todo o “empenho do coração. Esta é a história dos últimos garimpeiros: herdeiros de gente que fez da terra ouro e que, na saga de transformar as condições inóspitas, humanizou a paisagem
CÁ DO alto, vislumbra-se um horizonte de montanhas, às vezes de “pequenas serras paradas”. E quando se apura mais o olhar, ao redor e ao longe, pressente-se o Zêzere a correr, lá ao fundo, depois de Dornelas, num leito de passo largo a caminho das águas calmas e fundas da barragem do Cabril.
Mas o cenário dominante é o país do pinhal. Os pinheiros ocuparam solos rudes de cascalho e xisto, onde as estevas e os rosmaninhos florescem dando um toque de amenidade ao solo agreste. Aqui, o imaginário da posse da terra não inclui campos a perder de vista, ânsias de latifúndios; é preciso afeiçoá-la, a terra, ao coração da vida, não se morreu nunca por cá por um desejo desmedido de ter a imensidão possível, como acontece no fabuloso conto de Tolstoi, A terra de que precisa um homem.
O seu abandono é uma deserção mal compreendida e alguns guardam dentro de si esse ressentimento porque nem quatro palmos tiveram de seu. Por isso, ainda há resistentes que põem na terra todo o “empenho de coração”, o rigor de que falam os versos de Eugénio de Andrade, na respiração verbal da relação poética que ele fixou entre o trabalho de uma camponesa de Cantão e outra de Alpedrinha, ambas na tarefa de regar as leiras com mão segura.
É essa realidade primordial que nos transmitem Maria de Jesus Gaspar Gonçalves, o marido, José Dias Mendes Ladeira, a irmã deste Beatriz Dias Ladeira, ou Lucília Baptista Dias da Silva, viúva de mineiro, vestida de negro “até à alma”. Todos, como um só, num dos socalcos, envolvidos na faina de “descomorar”. Que quer dizer este falar do povo? É simples: vão buscar a terra que se acumula na parede do cômoro para repô-la nas quadrículas muradas que descem até à ribeira que vai para o Pisão.
Os terraços de cultivo vão em escadas até lá ao fio de água e passam depois para lá da estrada, sempre numa geometria difícil, até ao fundo, onde se aglomeram casas e gente, lugar que o Pisão já dominou, nos tempos áureos em que o lagar de varas estava de pé e não tinha mãos a medir para moer azeitona e fazer aquele azeite antigo que no imaginário é um manjar de deuses.
A senhora Maria de Jesus Gonçalves, 60 anos, explica-me que “os chões são inclinados e com a chuva e até com a rega, a terra vai- -se”. “Em cada Primavera, quando o tempo está mais doce, é preciso trazê-la, de novo para o cultivo”.
É o que estão a fazer nesta manhã, como se estivessem a renovar uma raiz primordial. “Preparamos a terra para batatas e milho, até lá abaixo à ribeira”, conta Maria de Jesus. “O milho é muito ruim de criar”. Cesta a cesta, lá vão elas, formigas humanas que transportam terra.
Chamam-lhe “trabalhar à formiga” e não há dúvida que a sabedoria popular é clara como a água.
– Trabalhar à formiga é dividir o percurso a meio, agora levo eu a cesta de terra à cabeça e depois passo-a à Beatriz (57 anos) ou à Lucília (53) – explica Maria de Jesus Gonçalves. – Assim sempre sossegamos um pouco do esforço.
O senhor José Dias Mendes Ladeira, aos 60 anos, não dá descanso aos braços. “Estive em França, 28 anos, na construção civil, trabalhei lá muito xisto, especializei-me nisso e cá continuo a fazê-lo (Janeiro de Cima), parar é morrer”.
Enquanto enche as cestas de terra diz-me que isto “dá uma grande trabalheira, mas quando as coisas são feitas com amor, sentimos maior a felicidade”. “E, olhe!, isto não é para vender, é para consumirmos em casa”.
– Sabem melhor as batatas?
– Saberão! – replica com um sor-riso. – Somos nós que as cultivamos…
Talvez nada ensine melhor esta funda identificação à terra do que a explicação que ele me dá (e volta a sorrir, outra vez):
– Fui criado nisto. Podia lá ver a terra abandonada.
A senhora Maria de Jesus Gonçalves tem uma história singular. Ao contrário de outros, não acompanhou o marido na longa estada em França:
– Fiquei cá, com os meus filhos, um rapaz e uma rapariga,
O marido, logo acrescenta:
– Era ela que tratava de tudo isto, fartou-se de trabalhar!”
– Estes terrenos foi tudo cavado à mão… – lembra Maria de Jesus. José Ladeira confirma e acrescenta a lembrança de outros tempos:
– Trabalhava-se com uma junta de bois, cheguei a trazer cá 12 mu-lheres!
Mas a verdadeira heroína é a mu-lher – e não falta unanimidade para confirmar o facto:
– Era danada para trabalhar!
Vendo-a transportar a terra, penso em voz alta:
– E ainda é!
Ela não quer esquecer canseiras antigas:
– É um trabalho ruim, muito duro…
Não é um queixume, é apenas memória viva.
O SOL está a pino, este terraço em que estamos à conversa e ao trabalho, está quase pronto. Em breve ficará um “brinquinho”: vai dar bom milho que há fartura de água ali mesmo ao lado, na pequena represa.
Há muitas oliveiras que descem para o vale, lá estão muros de pedra a sustentá-las. E não muito longe dos sítios onde os pássaros cantam, uma cerejeira em flor ajuda a fazer deste acto de Primavera, – um acto de esperança. A água canta em pequenos fios que correm escarpa abaixo. É a sabedoria do aproveitamento desse recurso essencial que se projecta no quadro rural, à frente dos nossos olhos. É o que dizem as palavras de José Dias Ladeira: “Água não falta, graças a Deus…”
Esta ligação à terra faz parte de um sentimento de pertença que se tornou muito nítido na relação da emigração com o mundo rural. A identidade com a terra é um fenómeno imemorial que a falta de gente vai esvaziando, ou quase já esvaziou de todo. Em cada aldeia, há histórias de casas fechadas e de silêncios pesados. Há sempre alguém a lembrar: quando morre o último habitante da casa, a cravelha pregada na porta quer apenas dizer abandono sem regresso. As silvas e a vegetação que trepa pelas paredes e se insinua no interior traduz a realidade de uma ausência definitiva e total.
Parece um destino inelutável, aqui e ali há quem regresse às origens, é verdade, mas há uma consciência adquirida de que esta geração – esta com quem estamos vivendo estes momentos – pertence à categoria dos últimos garimpeiros da terra, os últimos construtores de “jardins suspensos” em terra sáfara.
O homem do Carregal, José Dias Ladeira, que tem pensado muito nisto, não tem dúvidas:
– Os mais novos já não querem saber disto!
Dizem isso com tristeza, olhos baixos, mas sem ressentimentos. Quando se lembram de antigamente todos concordam que o esforço contido nestas conquistas da terra foi sobre-humano, às vezes (ou sempre?) quase escravo. A identidade telúrica que alimenta a história bem pode ligar-se ao labirinto de partidas e chegadas, de que se faz a vida, invertendo a formulação de uma vontade: o coração que é livre, vai; o corpo que é escravo, fica!
O SOL caminhou pelo horizonte, as nuvens começam a fazer desenhos malucos no céu, que logo se dissolvem noutros, em estranha coreografia. Em tempo de Páscoa, os lugares e aldeias são reocupados, há mais gente, às vezes parece que ouvimos sonoridades antigas de risos de crianças. Muitos vieram de longe matar saudades desta luz primordial. Gostam de olhar para aqueles que, ainda hoje, fazem todos os dias uma faina de celebração da terra.
Olho outra vez as pessoas, os socalcos roubados à morte e penso nestes garimpeiros para quem o ouro é a terra. Castanha, funda. À espera de um homem.
Jornal do Fundão, 3 de Abril de 2008
Ainda sem comentários.
Publicar um comentário
|
-
Recente
-
Links
-
Arquivos
- Abril 2008 (1)
-
Categorias
-
RSS
RSS das Entradas
RSS dos Comentários